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terça-feira, 14 de setembro de 2010

A intenção de mim és tu

Tenho a sede das ilhas
E esquece-me ser terra
Meu amor, aconchega-me
Meu amor, mareja-me
Depois, não
Me ensines a estrada.
A intenção da água é o mar
A intenção de mim és tu.

Mia Couto

terça-feira, 24 de agosto de 2010

24



Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

Mia Couto

segunda-feira, 26 de abril de 2010

TOCAS-ME

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue o teu.

Mia Couto

terça-feira, 13 de abril de 2010

Fundo do mar

Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço

Mia Couto
in Raiz de Orvalho e outros poemas

segunda-feira, 22 de março de 2010

manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

quarta-feira, 17 de março de 2010

Inicio, Anuncio, Denuncio

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

Mia Couto
in raiz de orvalho e outros poemas

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O frade e a fraude

Confrade do sim, o frade
se cansou de tanta oração,
e, errando, acertou na vida,
fez-se compadre do não.

Almejou, então, em braseiro
errar todo, de corpo inteiro,
vadiar até perder o missal
e ousar até o pecado imortal.

Desejou não apenas a porção
mas a vida sem proporção
e sonhou exercer-se macho
inclinar todo seu cacho
em mulher de travesseiro
tendo feitiço e sendo feiticeiro.

Agora, sem reza, a si mesmo se reveza
e provando que só o morto não peca
o frade esgotado de benzer
inventou, enfim, o bom ser.

Mia Couto
in idades cidades divindades

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Versos do Prisioneiro (2)

Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

AMAR.

Mia Couto
in idades cidades divindades