Mostrar mensagens com a etiqueta Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de março de 2010

4

Começa o tempo onde a mulher começa.
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
ÉS TU QUE ME ACEITAS EM TEU SORRISO, QUE OUVES,
QUE TE ALIMENTAS DE DESEJOS PUROS.
E UNE-SE AO VENTO O ESPÍRITO, RAREFAZ-SE A AURÉOLA,
a sombra canta baixo.

Herberto Helder
in O amor em Visita

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

CHUVA APAIXONADA

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.


Herberto Helder

terça-feira, 20 de outubro de 2009

a tua mão contra a minha boca...

estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo

Herberto Helder

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando (...)
estremeces como um pensamento chegado.
(...)
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Herberto Helder
in Ofício Cantante

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

luzimos de um para o outro...

Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder
in Ofício Cantante

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pedem TANTO a quem ama

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento.
(...)
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
(...)
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes do mundo.
(...)
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

Herberto Helder
in Ofício Cantante

sábado, 19 de setembro de 2009

pergunta

...pergunto, quem AMA ATÉ PERDER O NOME?

Herberto Helder
in Ofício Cantanto (do poema Canção Despovoada)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Loucura

...e gostaria
que o meu coração
entontecesse l e n t a m e n t e, que o meu coração
c
a
í
s
s
e
numa espécie de extática e sagrada LOUCURA.

Herberto Helder
in Ofício Cantante