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terça-feira, 18 de março de 2014

The fountain...

As confidências demoram-se no céu da boca como as nuvens lentas do Outono. Sopro-as, para que o céu se limpe e apenas uma névoa vaga se cole ao que me queres dizer; mas encostas-me os lábios ao ouvido e tu, sim, é que me contas que céu é este, e de onde vêm as nuvens que o cobrem. Sentimentos, emoções, paixões, interpõem-se entre cada frase. Nem há outros assuntos quando nos encontramos, e me começas a falar, como se fosse o coração a única fonte do que dizemos. Nuno Júdice, in POESIA REUNIDA

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

luz diferente

Certas manhãs trazem uma luz diferente.
Um ar de primavera, um pássaro que entrou
por uma fresta do telhado, e anda às
voltas na escada, uma voz que se ouve, num eco,
e não se sabe o que diz. A manhã irá passar,
como todas as manhãs que nasceram,
trazendo uma luz diferente; mas a primavera
que ela anuncia colou-se ao rosto com quem
nos cruzamos; o canto do pássaro meteu-se
na cabeça, como se ele voasse por dentro
da memória; e o eco que ouvi ganhou
uma voz na tua boca, quando te encontrei
e me disseste que havia uma luz diferente,
nesta manhã em que tudo parecia igual.

Nuno Júdice

domingo, 22 de agosto de 2010

e tudo recomeça...

Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:

assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.

Nuno Júdice

terça-feira, 20 de abril de 2010

pois dói

Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

segunda-feira, 12 de abril de 2010

TAKE ME HOME

Um barco atravessou os teus olhos,
levando um porão de sonhos para o porto
do infinito.

Nuno Júdice

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ficamos assim

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice

quinta-feira, 4 de março de 2010

tu, sonho

Um cair de cabelos nos teus ombros,
um suspiro preso à lembrança que
ficou, um brilho que se demora nos
olhos à janela, um eco que não passa

na memória de um murmúrio, o
abraço em que o tempo se suspende,
a voz que dança por entre ruídos e
silêncio, as mãos que não se libertam

num gesto de despedida, lábios que
outros lábios procuram, uma luz
que alastra na sombra que desce,

e uma sombra que se ilumina quando
a noite já cresce: tu, sonho que
faz real a realidade com que te sonho

Nuno Júdice

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

BRAILE

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

as coisas mais simples

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Saber que existes...

É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.

Nuno Júdice

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

atravesso os teus olhos...

Um barco atravessou os teus olhos,
levando um porão de sonhos para o porto
do infinito.

Nuno Júdice

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ESPAÇO

(...)
o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
-terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.

Nuno Júdice