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quinta-feira, 13 de março de 2014

O privilégio...

Nada, nem sequer o verão está completo. Menos ainda o colar de sílabas que, desvelado, te ponho à roda da cintura. Nunca me pediste mais, nunca te dei outra coisa. Quando juntamos as mãos esquecemos que somos culpados da nossa inocência. E sorrimos, alheios ao sol que declina, à estrela do norte que sabemos no fim. O privilégio da vida é este silêncio musical que do teu olhar cai nos meus olhos e regressa a ti acrescentado pela luz da manhã varrendo o mar. Eugénio de Andrade

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade
in Até amanhã

terça-feira, 16 de novembro de 2010

linha pura do teu rosto

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.

Eugénio de Andrade

domingo, 14 de novembro de 2010

DANAÇÃO DA ALMA

Não tardará a chegar ao fim
este Agosto que te viu passar
com a luz a teus pés.
Somos eternos, dizias.
Eu pensava antes na danação da alma
ao faltar-lhe o alimento que lhe trazias.
Agora a cidade
vive do peso incomensuravelmente morto
dos dias sem a tua presença.
Deixo a mão correr sobre o papel
tentanto captar o eco de uma palavra, um sinal,
e quem em qualquer parte cintila,
e confia ao vento o segredo da nossa tão precária eternidade.

Eugénio de Andrade

sábado, 5 de junho de 2010

Da maneira mais simples

É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade
in Sulcos da sede

terça-feira, 23 de março de 2010

brilho do olhar

Inventarei o dia onde contigo
e o outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir.

Eugénio de Andrade
in Poesia

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade
in O outro nome da terra

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Morreria agora se mo pedisses

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

se viesses agora...

Amar-te-ia se viesses agora
ou inclinasses
o teu rosto sobre o meu tão puro
e tão perdido,
ó vida.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

queria(-te)

Para JARDIM te queria.
Te queria para GUME
ou o FRIO das espadas.
Te queria para LUME.
Para ORVALHO te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a BOCA te queria.
Te queria para ENTRAR
e partir pela cintura.
Para BARCO te queria.
Te queria para ser
canção breve, CHAMA PURA.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

esqueceste?

mas tu esqueceste muita coisa.
esqueceste que as minhas pernas cresceram
que todo o meu corpo cresceu
e até o meu coração ficou enorme...
(...)
eu saí da moldura
e dei às aves os meus olhos a beber.

Eugénio de Andrade
excerto do poema Poema à mãe

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Adeus

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade
in As palavras interditas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sem ti

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade
in
Poesia